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Companheiros lideram violência contra mulheres
Publicado em 06.03.2008
Dossiê do Fórum das Mulheres de Pernambuco revela que 82,9% dos 1.862 assassinatos, entre 2002 e 2007, foram praticados por parceiros e familiares
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, comemorado no próximo sábado, o Fórum das Mulheres de Pernambuco divulgou ontem um estudo sobre a caracterização dos homicídios ocorridos no Estado, entre os anos de 2002 e 2007. As estatísticas apontam que companheiros e familiares são os principais agressores, ficando responsáveis por 82,9% dos 1.862 casos de assassinatos registrados no período. O número representa uma média de 310 mortes por ano, em Pernambuco. Quase metade dos crimes são cometidos contra mulheres jovens, de até 25 anos.
Quanto ao perfil dos agressores, segundo a coordenadora de pesquisa do Observatório da Violência contra as Mulheres, Ana Paula Portella, 95% são praticados por homens, com predominância do uso de armas de fogo, usadas em 64,2% dos casos registrados em 2006.
A história da técnica de enfermagem Kety Simone dos Santos, 31 anos, não fugiu à regra. Ela foi assassinada com três tiros, pelo sogro, na porta de casa, em abril de 2006. O acusado foi preso e cumpre pena há quase um ano. “O motivo era simples, mas isso não impediu que ele fizesse essa barbaridade. Ele queria ver o neto, mas como o garoto estava de castigo não pôde”, contou a enfermeira Hosana Olivina dos Santos, 52, que ainda chora a morte da filha.
Um dos pontos curiosos do dossiê é que a contagem feita pela imprensa entre os anos de 2004 e 2006 é maior que a lista com os números oficiais, divulgados pela Secretaria de Defesa Social (SDS). São 166 casos a mais. O levantamento será encaminhado à Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM) do governo federal. “É uma forma de documentar a violência contra as mulheres e pressionar por um conjunto de políticas de segurança e medidas de proteção. Os assassinatos são conseqüência da violência doméstica e conjugais a que estão submetidas”, disse Ana Paula Portella.
A violência também tem território marcado. A Região Metropolitana do Recife (RMR) concentra o maior número dos casos de homicídio com 62,9%. Com relação aos bairros de ocorrência, verificou-se, que no período de 2002 a 2007, nove bairros concentraram 21% de todos os registros.
O Ibura, na Zona Sul, e Santo Amaro, área central do Recife, estão no topo da lista em cinco dos seis anos analisados. “Eles têm mantido os registros como bairros extremamente violentos pela circulação de arma de fogo e atuação de grupos criminosos na área”.
Segundo dados do Departamento Policial de Mulheres (DPMul), até o último dia 3 de março, 60 mulheres foram assassinadas no Estado.
» HOMICÍDIOS
Dia de violência no bairro de Santo Amaro
Publicado em 06.03.2008
Santo Amaro, na área central do Recife, viveu mais um dia de violência, ontem. A polícia confirmou dois homicídios, um na Avenida Jaime da Fonte e o segundo na Rua da Bola. Entretanto, informações de moradores da área dão conta de que uma mulher, de identidade e idade não reveladas, também foi assassinada a tiros na Rua da Floresta. Ainda de acordo com testemunhas, o crime aconteceu por volta das 18h, porque a vítima devia dinheiro a traficantes. Até o fechamento desta edição, às 23h30, o homicídio não tinha sido confirmado pela polícia.
A Força-Tarefa do Núcleo da Delegacia de Homicídios registrou duas mortes. A primeira foi a do gari Alexsandro Fonseca da Silva. Segundo a polícia, ele estava trabalhando quando dois homens não identificados atiraram quatro vezes contra a cabeça dele. O gari foi levado para o Hospital da Restauração (HR), no Derby, onde faleceu.
Por volta das 16h, o biscateiro Carlos Alberto Ferreira dos Santos, 44, foi morto a tiros em uma casa em construção na Rua da Bola. A polícia detalhou o que pode ter motivado os dois crimes, que serão investigados pela Delegacia de Santo Amaro.
Já em Pau Amarelo,o cabeleireiro Jadson Bezerra Gomes, 32, foi morto a tiros na frente de casa, às 17h de ontem. Agentes da Força-Tarefa não deram informações sobre o que pode ter motivado o homicídio.
» PESQUISA
Mercado de trabalho prefere os homens
Publicado em 06.03.2008
Estudo do Dieese mostra que rendimento médio das mulheres continua abaixo do valor pago aos homens. O número de desempregadas é maior
No próximo sábado, dia 8, é celebrado o Dia Internacional da Mulher. Mas as trabalhadoras do Grande Recife terão pouco o que comemorar. O rendimento anual médio das mulheres no ano passado (R$ 555) continua bem abaixo do dos homens (R$ 755), sendo o equivalente a 73,5%. Além disso, as taxas de desemprego, de participação no mercado de trabalho da região e a camada da população feminina que ainda exerce atividades consideradas precárias sofreram tímidas melhoras na comparação entre 2007 e 2006, de acordo com a pesquisa A Mulher no Mercado de Trabalho da Região Metropolitana do Recife, realizada anualmente pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese).
“O Dia Internacional da Mulher será uma data para reflexão e não de comemoração. A relação de desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho do Grande Recife persiste”, argumentou o coordenador-geral da pesquisa, Jairo Santiago. Um exemplo é a taxa de desemprego feminina, que caiu menos que a masculina. A primeira partiu de 24,8% em 2006 para 23,1% em 2007, enquanto que a segunda caiu de 18,4% para 16,9%. Dessa forma, a maior parte dos desempregados do Grande Recife continua sendo mulheres (52,8%). E as ocupadas, em sua maioria, cerca de 47%, não tinham acesso a todos os direitos trabalhistas e de proteção social.
Os resultados são piores se for levado em conta que em todas as regiões do País, as mulheres têm maior tempo médio de estudo do que os homens. Santiago aponta mais um ponto negativo. O número de domicílios chefiados por mulheres aumentou de 26,8% em 1998 para 34,2% em 2007. “Por um lado há a ruptura dos padrões patriarcais, mas ao mesmo tempo, o aumento é negativo, pois as mulheres possuem empregos precários e ainda têm que fazer uma segunda jornada em casa, como chefe do lar”, justificou.
» COMPORTAMENTO
Elas fazem a diferença no trabalho
Publicado em 03.03.2008
Intuição, concentração e flexibilidade são algumas das características que favorecem as mulheres
Roseanne Albuquerque
roseanealbuquerque@radiojornal.com.br
Determinação, flexibilidade, concentração e sensibilidade: essas são apenas algumas das características comuns ao universo feminino que têm feito a diferença no competitivo mercado de trabalho. Aos poucos, de maneira às vezes quase que silenciosa, mas com resultados contundentes, a mulher vai ganhando mais espaço em diversos segmentos profissionais, inclusive nos que, há bem pouco tempo, eram predominantemente masculinos. As mulheres hoje estão na agricultura, nas corporações militares, nas mesas de decisões de grandes empresas. Para quem ainda acha que “lugar de mulher é na cozinha”, é bom começar a rever esse conceito.
“As mulheres caminham para conquistas ainda maiores e isso é muito perceptível. Em contrapartida, elas pagam um preço muito alto para se manter nesse competitivo mercado de trabalho, comprometendo até mesmo sua vida pessoal. A mulher de hoje é bem mais cobrada e o mercado exige muita dedicação. Quando chega a cargos executivos, tem que provar duas vezes mais do que os homens que realmente são competentes”, analisa a consultora organizacional da Rede Humana, Ana Paula Moreira.
Para a consultora, a mulher se firma mais no mercado de trabalho porque sabe aproveitar melhor algumas características, como a flexibilidade. “Ela usa a intuição, tem jogo de cintura para lidar com situações variadas dentro do ambiente de trabalho, porque ela mesma vivencia isso em seu dia-a-dia. Exemplo: a mulher tem que resolver questões de casa, de marido, de filhos, está sempre tomando decisões e isso, sem dúvida, facilita o encaminhamento de ações no lado profissional”, argumenta Ana Paula. “Isso concede mais dinamismo no ambiente de trabalho”.
A psicóloga Virgínia Passos aponta a ampla percepção feminina como um grande trunfo na participação nos diversos segmentos profissionais. “Normalmente o homem é mais imediatista, a mulher já desenvolve melhor essa questão do planejamento. Um grande aliado disso é a educação dos filhos. A mulher acompanha com mais detalhes esse processo, planeja ações para sua prole a curto, médio e longo prazos, e ela inevitavelmente transfere esse senso aguçado de responsabilidade e planejamento para o trabalho”, enfatiza. “Talvez seja este um dos grandes fatores de motivação, de força que a mulher tem agregado nas suas áreas de atuação”, complementa.
Para a empresária Luzineide Vasconcelos Cavalcanti, a tendência é que a presença feminina no mundo do trabalho cresça cada vez mais. “Com certeza, a mulher já solidificou sua marca no mercado. O diferencial da força feminina é que ela tem uma ampla visão de trabalho, tem uma sensibilidade mais aguçada e dosa com mais equilíbrio a razão e emoção nas horas de decisões”, diz a empresária. Para ela, a mulher é bem mais dedicada, tende a buscar a perfeição e é bastante crítica.
“O sucesso das mulheres é garantido com uma dosagem de paciência, serenidade e garra, características tão comuns a elas”, conta Cavalcanti. Ela está no ramo de vestuário e cama, mesa e banho há 18 anos, administra sete lojas e comanda um corpo funcional composto por 90% de mulheres.
Elas também tem ganhado espaço na vida política, seja no exercício de cargos executivos e legislativos, seja nos movimentos populares. “Quando integra uma luta social, a mulher coloca como diferencial a sua sensibilidade, que passa a ser vista não como um empecilho, mas uma característica que preconiza o diálogo, a conversa, a negociação. Ela usa sua sensibilidade para ter mais poder de convencimento”, destaca a professora Socorro Lacerda, integrante da União Brasileira de Mulheres.
Mas ela ressalta que as mulheres enfrentam grandes dificuldades para participar da militância. “Não é fácil para nós administrarmos os afazeres de casa, trabalho, filhos, companheiros e ainda por cima ganharmos as ruas para lutarmos por algum ideal. Isso ainda é uma grande exceção”, afirma.
» CAPA
Mulheres em busca de conciliar papéis
Publicado em 02.03.2008
[SUTIA-C]Trabalho ou filhos? Depois de conquistaram respeito e posições no mercado de trabalho, elas não querem escolher, mas equilibrar funções, É o que revela pesquisa sobre perfil feminino
Bruna Cabral
bruna@jc.com.br
Nem enfurnadas dentro de casa, nem incendiárias de sutiãs. As mulheres entraram no século 21 mais equilibradas. Ou equilibristas. Conseguiram, enfim, largar a bandeira do feminismo, assumindo causas – e cargos – os mais diversos. O mercado de trabalho está de portas abertas para elas. Especialmente o brasileiro. Segundo pesquisa da consultoria Grant Thornton International, o País já figura em segundo lugar no ranking mundial de nações com melhor distribuição de cargos de gerência entre homens e mulheres. Às vésperas da comemoração de mais um Dia Internacional da Mulher, 8 de março, elas nunca gozaram de tanto prestígio profissional. Em compensação, jamais sentiram tanta saudade dos filhos.
O malabarismo não é mais para se fazer notar entre colegas de terno, gravata e currículo com reconhecimento social determinado pelo gênero. Difícil agora é voltar para casa todos os dias a tempo de participar da vida de suas crias. “As mulheres já têm papéis assegurados. Muitos, por sinal. O que elas buscam é conciliar todos eles”, afirma Suzana Carvalho, diretora do instituto de pesquisa gaúcho Rohde & Carvalho, que realizou duas edições, em 2000 e 2007, de uma pesquisa de opinião chamada Mulheres do Brasil, sobre hábitos de consumo e comportamento delas. A executiva conta que percebeu a mudança de foco feminino após comparar os resultados. “Na primeira edição, 70% das entrevistadas declararam-se focadas em suas carreiras. Ano passado, só 23% disseram o mesmo”, conta.
Só não dá para confundir o novo resultado com falta de profissionalismo. Os números divulgados pelo Grant Thornton International atestam a competência delas: nada módicos 42% dos altos cargos nacionais são ocupados por mulheres. Dentro de casa, elas também chefiam. Segundo a pesquisa da Rohde & Carvalho, 71% das 2.100 mulheres entrevistadas são independentes financeiramente e só 50% delas dividem a responsabilidade de manter a casa com parceiros. Mais de 80% das entrevistadas afirmaram estar mais envolvidas com a criação dos filhos que os parceiros. Não sem um custo alto: 55% delas admitiram que se sentem sobrecarregadas.
“Da porta de casa para fora, está tudo muito bem definido: o sustento da família é responsabilidade do casal. Mas dentro de casa os acordos ainda estão sendo feitos. É como se a paternidade ainda precisasse ser estimulada pela mulher. Ela é quem cobra maior envolvimento dele”, diz a psicóloga Ana Flávia Cortez, 34, mãe de Beatriz, 2. “A gente tem que dar qualidade de vida aos filhos, viver investindo em qualificação profissional, ganhar dinheiro e ainda precisa ser linda, magra, ter cabelos sedosos e escovados, unhas feitas… Claro que ser mulher é bom, mas dá muito trabalho!”
E cada mulher busca uma estratégia para dar conta de tudo. Umas ficam de olho no trabalho, outras na família, outras no espelho – para não fazer feio diante da dura concorrência com o Photoshop das revistas femininas – e há até as mulheres-maravilha que acham tempo para cuidar do planeta. Confira nas páginas seguintes perfis de mulheres que foram “fotografados” pela pesquisa da Rhodes & Carvalho. E depois por Chico Porto nas ruas do Recife.
» CAPA II
» Mulher-canguru
Publicado em 02.03.2008
Só falta o “bolsão” para a psicóloga Ana Flávia Cortez (foto), 34 anos, sair por aí carregando a filha Beatriz, de dois anos, para todo lado. “Trabalhava o dia inteiro, mas em dezembro deixei um dos empregos, para ter um pouco mais de tempo livre”, conta. Além de Bia, o desejo de estudar foi o que levou à decisão. “A gente precisa sempre se qualificar, mas também não dá para sumir de casa. Preciso estar por perto.” E quando ela não consegue, quem assume os cuidados com Bia é a babá. “Basta pegar a bolsa para Beatriz perguntar se vou trabalhar. Até nas brincadeiras dela isso aparece: ela fala que é mãe das bonecas e diz que vai trabalhar e mais tarde volta.” Para outras “cangurus”, a maternidade assume contornos tão grandiosos que o trabalho perde o sentido. “Preferi ficar em casa cuidando de meu filho. Dizem que é retrocesso, mas não acho. Minha avó não teve escolha. Eu tive. Acho um privilégio vê-lo crescer”, diz a mãe em tempo integral Carla Cristina da Silva, 25. O estudo da Rohdes & Carvalho apontou que mulheres como Carla e Ana Flávia representam 27% das entrevistadas da classe A. Elas trabalham (72%), têm computador (85%), em média 35 anos (72%) e, claro, filhos. Mesmo com renda inferior, a professora Suzana Farias, 40, não titubeou antes de se assumir canguru. Com dois filhos, admite sentir prazer em trabalhar, mas “nada se compara à satisfação de ser mãe. O fundamental não é sucesso, mas tempo para ficar com meus filhos”.
» Mulher-borboleta
O mercado de trabalho é das borboletas. Mulheres independentes financeiramente, com até 40 anos (71%), adeptas de toda e qualquer forma de avanço tecnológico, para quem computador e internet são tão familiares quanto telefone e televisão. Elas representam, segundo a pesquisa, 31% das mulheres da classe A entrevistadas. Executivas como Cristiane Amaral (foto), que, embora tenha somente 33 anos, já está celebrando 10 anos de carreira. Cristiane é formada em contabilidade e trabalha como bancária “o dia inteiro”, muitas vezes sem intervalo nem para o almoço. “Durante a semana, dou pouquíssima atenção a meu filho. Aí, o fim e semana é dele. E meu”, diz, deixando bem claro que os cuidados pessoais ficam em segundo plano. “Até gosto de ir ao salão de beleza, mas só se for rápido, porque não tenho tempo a perder”, diz Cristiane. Representando uma fatia cada vez maior de mulheres brasileiras, ela conta que a decisão de ter filhos foi adiada por muitos anos em função da carreira. “Queria ter alguma segurança financeira para engravidar e fiquei adiando até que, aos 31, decidi: é agora ou nunca”, lembra. O problema é que estabilidade rima com responsabilidade. E ela vive às voltas para equilibrar duas agendas lotadíssimas: a de mãe e a de bancária. Sua prioridade? “Não tenho uma, tenho várias”, resume.
» Mulher-avestruz
Com mais de oito anos de experiência profissional, Waldecila Cocri (foto), 34, é o que a Rhodes & Carvalho definiu como mulheres-avestruz. “Na verdade não sou, estou.” Mãe de um rapaz de 17 anos, ela nunca abriu mão de seu trabalho, enquanto pôde escolher. “Há cinco meses estou sem emprego.” E também sem auto-estima, vontade de sair de casa e sem qualquer confiança nas oportunidades do mercado de trabalho. “As coisas são muito injustas ultimamente. Mas não acho que para qualquer gênero”, diz. “Antes, existia um grande preconceito com relação à capacidade das mulheres, agora existe medo. Os homens estão perdendo oportunidades para nós”, diz a advogada recém-formada Janaína Pontes, 22, que está tentando “domar” o mercado primeiro para depois pensar em filhos. Desempregadas ou simplesmente frustradas profissionalmente, as mulheres que a Rohdes & Carvalho agrupou como avestruzes somaram nada menos que 18% das entrevistadas da classe B. Elas geralmente têm filhos (69%), são casadas (59%), têm foco nelas mesmas e querem mudar de vida.
» Mulher-camelo
Acostumada ao “batente”, a auxiliar de serviços gerais Ana Paula dos Santos (foto), 27 anos, bem poderia ser considerada a mulher padrão brasileira, não fosse por um detalhe: ela não tem filhos. Nem é casada. “Não quero filho nem tão cedo”, diz, categórica. O que ela quer evitar a todo custo, na verdade, é outra boca para alimentar. Arrimo de família, ela é a única que trabalha em casa para sustentar dois irmãos mais novos e a mãe, que perdeu a fala após ter sofrido um AVC há cinco anos, e recebe “uma aposentadoriazinha”. “Sou a mais velha. Minha irmã caçula cuida da minha mãe e meu irmão do meio faz uns bicos”, conta. Enquanto não “organiza as coisas em casa”, os sonhos de Ana Paula são todos profissionais. Com segundo grau completo, ela quer se formar em psicologia. “Quem sabe…” Equilibrando-se na mesma corda bamba que milhares de brasileiras, Ana é o que a pesquisa da Rohde & Carvalho define como mulher-camelo: “pertence à classe C, é focada no trabalho, não alcançou a independência financeira e carrega muitas responsabilidades”. Segundo a pesquisa, 55% delas têm até 35 anos, 77% até vão ao salão de beleza e 42% são casadas.
» Mulher-pavão
Quando Ana Celina Queiroz (foto), 36, passa, todo mundo percebe que ali vai uma mulher-pavão. Pelo menos foi assim que o estudo Mulheres do Brasil classificou as vaidosas-obssessivas de plantão, nada menos que 24% das entrevistadas da classe A. Ana Celina é uma pavão padrão: não tem filhos, não é casada, gasta os tubos no salão de beleza, compra cremes “caros”, maquiagem, roupas, jóias, sapatos, bolsas… não dispensa nada. “Quando estou estressada, não tenho dúvidas: corro para o shopping para fazer muitas compras. Fico calma num instante”, brinca. A única responsabilidade de Ana Celina, além dela mesma, são seus pais, com quem divide a casa e as despesas. Concursada, ela admite estar numa situação privilegiada: “para os padrões brasileiros, vivo muito confortavelmente”. Ela e todas as “pavões” estão capitaneando uma corrida meio exagerada pela vaidade que começou há alguns anos no Brasil, impondo severos padrões de beleza às mulheres. Elas pensam mais nelas que em quaisquer outras pessoas, são independentes financeiramente, fizeram um ou mais tratamentos ou procedimentos estéticos, trabalham fora (88%), têm – e utilizam bastante – cartões de crédito (89%), vivem no salão de beleza (97%) e usam cremes e cosméticos (99%). Muitos, de preferência.
» LITERATURA
Amor e psicanálise na visão feminina
Publicado em 06.03.2008
Eugênia Bezerra
eugenia.bezerra@gmail.com
Um diálogo sobre as questões do amor e da sexualidade femininos ao longo dos tempos é o ponto de partida da psiquiatra gaúcha Vera Stringuini no livro Amar Amando: do amor e da sexualidade, a ser lançando hoje, a partir das 18h, na Livraria Arraial. A autora volta ao Recife, onde viveu dois anos na clandestinidade durante a luta contra a ditadura militar, até ser presa, ficando mais três anos na Colônia Penal do Bom Pastor.
A obra é formada por 10 artigos que combinam conceitos da psiquiatria com elementos da memória afetiva da autora. “É um tipo de literatura que fiz para me organizar, acertar contas com meus mestres, como Freud e Melanie Klein, e personagens importantes na minha vida, como o dramaturgo Nelson Rodrigues”, explica Vera. O resultado é um livro que aborda temas complexos como a libido, o afeto e o desenvolvimento sexual infantil, bem como as interpretações das sociedades ao longo dos tempos, sob a perspectiva psicanalítica, de uma maneira compreensível mesmo para o leitor menos familiarizado com os assuntos abordados.
“Não há tantas amarras teóricas. Podemos usar a sexologia para falar sobre moda, filosofia. É isso que me interessa”. Mesmo assim, a obra aborda diversas correntes de pensamento, como a psicanálise clássica e a junguiana. “Comecei a me interessar pela sexologia, não tanto do ponto de vista médico, mas do imaginário. Especialmente sobre as representações trágicas do desejo”, diz.
A autora destaca que, dada a complexidade do assunto, Amar amando não apresenta conclusões. “Quando falo de amor e sexualidade é um esforço para entender isso em sua amplitude. É um assunto cabe mais na imaginação do que no que considermos entendimento”, teoriza.
A própria relação entre a autora e os textos escritos tem mudado ao longo do tempo. No capítulo Freud e a feminilidade, por exemplo, ela tece críticas à representação do feminino construída pelo pai da psicanálise por considerá-lo reacionário. Embora seu entendimento hoje seja outro, não reescreveu o ensaio. “Freud tinha certo atraso nesse aspecto. Mas ao lado do feminino, havia a mulher, com as quais se dava muito bem. Ele sempre teve mulheres cuidando dele, por isso criou regras do que seria o feminino. Mas entendo que na época, do pós-guerra, havia mesmo um desajuste de papéis, especialmente sexuais. Foi um desafio ter que debater de igual para igual com Freud.”, afirma.
A autora mobilizou figuras femininas da mitologia e das artes para refletir sobre a obra dos mestres. “Meus pacientes estão muito presentes, mas optei por não usar casos clínicos porque assim eu teria um certo controle da interpretação. Com personagens de domínio público, há um debate mais igualitário com o leitor”, justifica.
O amor e a sexualidade masculinos também interessam à autora, e devem estar presentes em suas próximas obras. “A relação entre pai e filho também é muito complexa. Estou me dedicando a um trabalho sobre Cristo, Deus e o carpinteiro José no qual abordo estes pensamentos”, adianta Vera Stringuini.
» Lançamento de Amar amando: Do amor e da sexualidade. Hoje, 18h, na Livraria Arraial, Estrada do Arraial, 2.350, Tamarineira. Entrada franca. Fone: 9601-7444
» INAUGURAÇÃO
Julieta Pontes abre Galeria Uffici
Publicado em 06.03.2008
Inúmeras exposições e performances artísticas depois, a Rua Jeremias Bastos, no Pina, ganhou o apelido de Rua dos Artistas. Ateliês que atraíram outros e, em pouco tempo, se aglomeraram. Neste espaço, há cerca de 15 anos, funciona o Atelier Julieta Pontes, que a partir de hoje abriga a Galeria Uffici. Nesta noite de inauguração, a artista plástica Julieta Pontes expõe telas da mostra Matéria natural, que já circulou em Estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Paraíba. Periodicamente, a galeria será aberta à exposição de telas de outros artistas e pretende promover e ampliar a produção artística através de intercâmbios e laboratórios, incentivando e abrindo portas para o mercado da arte, com um espaço adequado para abrigar as obras. Por causa da grande visitação do público e circulação de artistas na rua, há quatro anos, as primeiras terças-feiras do mês viraram dia de ateliês abertos e espaço para a cultura. A Galeria Uffici vai funcionar das 9h às 17h, na Rua dos Artistas, 442, Pina.
Afortunadas mulheres
Publicado em 06.03.2008
Luiz Otavio Cavalcanti
Elas estão sempre por perto. Desde o berço materno, na primeira escola, a primeira namorada e, cada vez mais, profissionais em empresas e nas cortes. Embora, às vezes, não as vejamos. Não que se tornem invisíveis. Mas porque as deixamos de ver em nossa cega ilusão. De minha parte, procuro enxergá-las e aprender com elas. Maria, mulher exemplo, Gabriela, que percebe as dores do mundo, e, neste meu outono, chegou uma primavera, Rafaela.
E, na política? Grandes líderes na história mundial foram mulheres. No Egito, Cleópatra, na Espanha, Isabel, na Inglaterra, Elizabeth I, na Rússia, Catarina, a Grande. Mas, elas só brilham nas monarquias?
Bem, alguns psicólogos entendem que as mulheres, em comparação com os homens, têm mais habilidade para criar consensos políticos e são mais hábeis para organizar iniciativas. Uma explicação para sua forte presença nas monarquias talvez fosse o fato de que, no trono, mulheres lidam com elites limitadas. Enquanto que, nas democracias modernas, elas enfrentam mais abertamente preconceitos públicos (Nicholas Kristof, ESP, 17/02/08). Talvez.
De qualquer modo, líderes femininas afirmativas exerceram o poder com êxito em regimes democráticos: Golda Meir, em Israel, Indira Ghandi, na Índia, Margareth Tatcher, na Inglaterra, Benazir Bhuto, no Paquistão, e recentemente as presidentes do Chile e da Argentina.
Certamente não terá sido fácil para elas. Auto-promoção funciona eficazmente para os homens na sociedade-espetáculo em que vivemos. Mas quando se trata de mulheres, a reação geral não é propriamente de aprovação. Isso aumenta o desafio para o feminino. Segundo Rosabeth Moss Kanter, da Harvard Business School, ser julgada boa mulher e boa líder é luta árdua e permanente. A autora acentua que até o uso de terninhos em campanha é motivo para discussão, como ocorre com Hillary Clinton na corrida presidencial americana. Talvez porque a aparência feminina seja mais valorizada do que a masculina.
Estudo realizado por Esther Duflo, do Massachusets Institute of Technology (MIT), na Índia, registrou a obrigatoriedade de presença de mulheres em um terço das câmaras municipais. E concluiu, utilizando critérios objetivos, que mulheres administraram províncias melhor do que homens. Inclusive por terem aceito menos propinas.
No Brasil, mulheres já governaram e governam Estados: Ieda Crusius (RS), Rosinha Garotinho (RJ), Roseana Sarney (MA) e Vilma de Faria (RN). Também já administraram prefeituras de Capitais: Marta Suplicy (SP), Ângela Amim (Florianópolis), e Luizianne Lins (Fortaleza).
As mulheres, não sem alguma razão, dizem que precisam apresentar o dobro da competência masculina para chegar aonde desejam. Pode ser. E se o for, é uma pena. Porque democracia contemporânea, sem presença feminina, perde em vocação social e em inspiração pessoal. Essas são virtudes especialmente femininas. Raras no mundo político masculino.
Ter consciência da eficácia política das mulheres parece óbvio para os pernambucanos. Mas não o é. Pois aqui, na terra das heroínas de Tejucupapo, não as tivemos ainda nem na prefeitura do Recife nem no governo do Estado. Aliás, por aqui, temos que começar diminuindo os índices de violência contra elas. Viva a mulher.
» Luiz Otavio Cavalcanti é diretor da Faculdade Santa Maria.
EDITORIAL
Velhos e novos dilemas femininos
Publicado em 02.03.2008
O que pensam, como vivem e o que desejam as brasileiras? Essas perguntas foram o pontapé para a produção da reportagem de capa desta edição, inspirada nas comemorações do Dia Internacional da Mulher, no próximo 8 de março. A repórter Bruna Cabral apresenta os números e perfis de brasileiras que resultaram da pesquisa Mulheres do Brasil, sobre hábitos de consumo e comportamento delas, realizada pela consultoria Rohde & Carvalho. Entre outras facetas do sexo feminino, o estudo trouxe à tona dados surpreendentes, como a preocupação em comprar produtos que não agridam o meio ambiente (72% das entrevistaram declararam isso) e a preocupação em economizar água (81% das entrevistadas). Curiosamente, a pesquisa aponta ainda que, mesmo que 76% das mulheres trabalhem fora de casa, apenas 23% delas assumem que colocam o trabalho em primeiro lugar. Estão as mulheres conseguindo, então, dar de fato mais atenção à família e a elas mesmas? Só lendo a reportagem para conferir. E já que a consciência feminina anda atenta no quesito preservação do planeta, nada melhor que a reportagem de Carol Botelho sobre ecodesign, tendência forte na ambientação e que privilegia a preocupação em reciclar, não poluir e descobrir materiais alternativos. Porque já é possível sim – com um pouco mais de dinheiro, é verdade – deixar a casa bonita e ser ecologicamente correto.
» PESQUISA
Para as mulheres aparência conta mais que o dinheiro
Publicado em 03.03.2008
Beleza é a principal arma de sedução para os homens conquistarem suas parceiras, embora alguns continuem pensando que o que elas mais querem deles é uma boa situação financeira
Para as mulheres a aparência masculina conta mais que dinheiro. A afirmativa é resultado de recente pesquisa realizada entre norte-americanas e publicada na revista especializada Journal of Personality and Social Psychology. Segundo o estudo, feito através de encontros relâmpagos entre 80 jovens casais, a aparência e um corpo atraente são pré-requisitos mais importantes para a mulher na hora de escolher seu parceiro. Ouvimos algumas mulheres do Agreste para saber se elas concordavam com os resultados da análise.
A comerciante Ivany Ferreira Silva, 23 anos, disse que para ela o fato de o homem ser rico é apenas conseqüência. “Um belo físico é o primeiro estímulo que me atrai. Trabalho muito, tenho uma renda considerável e não preciso do dinheiro deles para me aproximar”, garante. Já a supervisora de recursos humanos Vitória Régia Melo, 38, diz que a beleza não atrai apenas as norte-americanas. “O pobre e lindo pode até ganhar dinheiro, mas o rico e feioso dificilmente vai ficar bonito”, diz.
Para a psicóloga educacional Socorro Luna, de Garanhuns, a realidade da região pode se encaixar na pesquisa por estar ligada à responsabilidade financeira da maioria dos lares, que, no Nordeste, pertence às mulheres. “Isso é uma mostra da força do sexo feminino no mercado de trabalho. Elas conquistaram espaço e pouco precisam do dinheiro dos homens”, explica. O segundo motivo, conforme Luna, é a supervalorização da beleza. “Podemos observar o aumento de novas clínicas de estética, academias de ginástica e até a aquisição de roupas caras que estão na moda”, explica.
Com situação financeira estável, o publicitário Jackson Carvalho, 39, acredita que cuidar da vaidade eleva a auto-estima do homem e passa a ser o que chama de um “diferencial competitivo”. “As mulheres estão mais independentes, por isso, percebo que fatores como o físico e a forma de se vestir se sobressaem ao dinheiro. Claro que isso deve ser atrelado aos princípios e a uma boa dose de romantismo”, considera.
Em contrapartida, o estudante Dawton Luis Moraes, 24, acha que as mulheres se importam mais com dinheiro. “Já aconteceu de eu estar ficando com uma menina e ela se esquivar quando descobriu que não tenho carro. Elas gostam de ver o homem esbanjando dinheiro para dar luxo a elas, e não importa se ele é bonito. Por que há tantos mulherões acompanhadas de feios?”, questiona.
De acordo com a psicóloga Renata Pacheco, mestranda em família e comunidades pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a opinião de Dawton tem sentido. “Creio que as mulheres continuam atraídas pelo poder e status social do homem – especialmente as mais jovens. No entanto, as maduras, independentes, pouco se apegam ao dinheiro e à beleza: elas querem, antes de mais nada, um companheiro”, analisa.
“De modo geral, as americanas estão nunca situação privilegiada: pertencem ao Primeiro Mundo e não são obrigadas a enfrentar a miséria existente em nossa região. Caso a pesquisa fosse realizada no Nordeste, o resultado teria sido diferente”, prevê.
» Dia da Mulher
Até o próximo sábado, 8, o Plaza Shopping comemora o Dia Internacional da Mulher com serviços gratuitos como massagens, reflexologia, pilates, entre outros. A iniciativa, realizada em conjunto com a Clínica Vive Day Spa, conta também com palestras de profissionais de saúde, como nutricionistas. Para participar, basta levar um quilo de alimento não perecível, que será doado ao NACC. Informações: 3265-8100.
» Espartilho e silicone
Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, 8, o Shopping Guararapes promove a exposição Entre espartilhos e silicones: os artifícios da sedução feminina através das décadas, que retrata a mulher desde o século 19. A mostra, que acontece até 16 de março, na Praça da Cidade do centro de compras, apresenta peças como espartilhos e enchimentos de silicone, vestidos de cintura baixa dos anos 20, conhecidos como “achatadores de seio” , e imagens de personalidades como Marilyn Monroe, Cindy Crawford e Angelina Jolie. O evento acontece de segunda a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos, das 12h às 20h, com entrada gratuita.
» VÔLEI DE PRAIA
Lula e Carla na luta para passar pelo qualifying
Publicado em 06.03.2008
Dois pernambucanos entram em quadra hoje com o objetivo de garantir um lugar no torneio principal da etapa de Foz do Iguaçu, no Paraná, do Circuito Brasileiro de vôlei de praia. Lula (parceiro de Pará) e Carla Piloto (que joga com a catarinense Andréa Teixeira) estão na briga por uma das 16 vagas (oito masculinas e oito femininas) na disputa principal, que começará amanhã e segue até domingo. Caso passem, juntam-se aos conterrâneos Adriano e Fabiano, com lugar garantido por conta da quinta colocação no ranking nacional.
“A gente conseguiu treinar bem melhor por conta dessa pausa de 15 dias entre uma etapa e outra. Vamos jogar de cara contra uma dupla experiente que é Carol/Nina(RS/PR), mas as nossas expectativas são as melhores”, disse Carla. Elaine, outra pernambucana na disputa do Circuito, não está na etapa por estar cumprindo uma suspensão da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV).
O qualifying em Foz do Iguaçu reunirá 27 duplas masculinas e 25 femininas. As parcerias que avançarem se juntarão a outras 32 previamente classificadas (16 masculinas e 16 femininas) para a disputa do principal.