Publicado em 28.10.2007
SÃO PAULO – Ninguém falava em tráfico de pessoas no Brasil há oito anos, lembra Ana dos Santos Araujo, 36 anos. Aliás, ninguém falava com Ana sobre nada. Prostituta desde a morte do pai policial e do fim da renda da família, usava drogas pelas ruas do Recife quando uma mulher veio lhe oferecer US$ 1 mil para trabalhar como garçonete na Holanda. Ana foi.
O inferno de explorações e agressões a que foi submetida ao ser traficada como prostituta para três países – Holanda, Alemanha e Suriname – Ana repete hoje para alunos de escolas, freqüentadores de igrejas e para quem quer que pergunte. Suspira e diz antes de iniciar: “Aconteceu comigo”. “Fiquei empolgada, a gente enche os olhos. Eles me arrumaram tudo, me deram US$ 1.500 de adiantamento e fui fazer meu passaporte. Cheguei lá e era uma casa com muitas garotas. Retiraram meu passaporte, fui trancada por três meses, vivia e trabalhava no mesmo lugar. De lá, me levaram de carro para a Alemanha. O lugar era todo fechado. Se houvesse um incêndio, morreria. Depois fui para o Suriname.”
Como Ana reclamava por trabalhar sem ganhar e sem ter liberdade para sair, foi espancada e até torturada. Mais surras se não tomasse um remédio para interromper a menstruação.
Nos intervalos, havia crack à disposição de todas as meninas, relata. “Meu café, meu almoço e meu jantar era crack. Eu já estava muito debilitada e um segurança teve pena de mim e me deixou fugir.” Ana conseguiu enviar um fax para uma ONG do Recife que trabalha com prostitutas e foi resgatada pelo consulado brasileiro.
Guarda até hoje fotos de seu estado quando voltou, para mostrar o que superou. “Hoje estou ótima. Limpa há sete anos, estou na Assembléia de Deus, evangelizo as pessoas. Descobrimos com a ajuda de um policial que tínhamos direito à pensão do meu pai e voltei a viver com a minha mãe. Você vê, bastava um encontro com uma pessoa de bom coração. Às vezes me pergunto: ‘Por que passei por tudo isso?’”.